Já Pessoa dizia
"Conheço-me e não sou eu".
Mas ele era vários; eu posso ser duas. Ou melhor, aparento ser duas.
Mas na verdade sou só uma. Ou melhor, um.
Sou um verme rastejante, que se alimenta do lixo que vai encontrando pelo caminho.
Que merda de caminho !
Sou a mais bela farsa de todas, a melhor farsa de todas - porque até engano a mim própria.
Fico cega com os meus brilhantes e purpurinas, deixo-me levar pelas mentiras a bordo de navios e assim fico, a vê-los passar.
Mas que navios luxuosos, sim!
Porque eu não me deixo enganar por pouco. É preciso o brilho ser tanto para me conseguir cegar com o reflexo do sol.
É preciso eu achar que subi tão alto - ou melhor, querer acreditar! - para depois ver que sempre andei aqui, a 100 metros abaixo do chão.
Sou o pior verme de todos, pois sei o que sou.
E sei que nunca hei-de entrar num casulo e transformar-me em borboleta,
Sei que nunca vou voar.
Mas eu quero voar...
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